Telecentros de acesso à internet sofrem de ‘desuso’ público

Com barateamento de PCs e smartphones, telecentros perdem a importância e sofrem com problemas de infraestrutura

Por Thiago Jansen

Telecentro na Rua Cuba, na PenhaFoto: Leo Martins / O Globo

Telecentro na Rua Cuba, na PenhaLeo Martins / O Globo

RIO — Importantes para a inclusão digital no início da década de 2000, os chamados telecentros públicos gratuitos — espaços mantidos pelos governos federal, estaduais e municipais para acesso da população a computadores e internet — chegam a 2013 passando por um dilema de identidade. Numerosos, porém subutilizados, com problemas de infraestrutura e mal sinalizados em alguns casos, essas salas vêm perdendo sua importância, devido ao barateamento dos computadores e ao maior acesso a eles.

É o que indica uma pesquisa do Centro de Estudos sobre Tecnologias de Informação e da Comunicação (Cetic.br) — que faz parte de uma entidade civil sem fins lucrativos — e visitas feitas pelo “Globo a Mais”, nos meses de fevereiro e março, a nove telecentros do Rio, mantidos pelas três esferas do poder público no Centro e em bairros das zonas Sul e Norte da cidade. Salas difíceis de encontrar pela falta de sinalização, pouco uso dos espaços pela população, ar-condicionados com defeito, máquinas quebradas e, em um local específico, completa inoperância foram alguns dos problemas encontrados. Para pesquisadores, é preciso rever o modelo de funcionamento dos telecentros, pois a simples oferta de salas com acesso gratuito a máquinas, internet e aulas básicas de computação não seria mais suficiente para uma inclusão digital efetiva.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílios e Usuários 2011, realizada em todo o território nacional pelo Cetic.br e divulgada no ano passado, 36% dos domicílios brasileiros têm computador de mesa — em 2005, esse percentual representava apenas 16,6%. Pela última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, relativa a 2011, 42,9% dos domicílios brasileiros tinham microcomputador. Ainda segundo a TIC, do total de usuários brasileiros da internet, 67% acessaram a rede em casa nos últimos três meses da pesquisa, enquanto apenas 6% o fizeram pelos telecentros públicos gratuitos — percentual que ficou atrás do acesso pelo telefone celular (15%), na escola (16%), na casa de outra pessoa (28%), em lan houses (28%) e no trabalho (29%).

— No início da difusão da internet, o acesso da população, principalmente de baixa renda, era muito difícil, e aí sim houve um espaço importante para o poder público prover esses recursos. Hoje, no entanto, essa população crescentemente já usa computadores e internet de casa, ou mesmo em outros espaços, como indica a pesquisa do Cetic.br. Nesse contexto, o telecentro vem perdendo protagonismo na inclusão digital — afirma Nicolau Reinhard, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador de políticas públicas para a inclusão digital. — Agora, boa parte desses espaços é utilizada pela população apenas para serviços de governo eletrônico ou breve uso da internet. Esses são tipos de acesso válidos, mas se são o melhor uso de recursos públicos é uma questão discutível.

Média de uso diário nessas salas não chega a dez pessoas

O município do Rio conta atualmente com 54 telecentros públicos gratuitos espalhados pela cidade, divididos em três projetos distintos: o Telecentros.BR, do governo federal e sob responsabilidade do Ministério das Comunicações; o programa Internet Comunitária, do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj); e o projeto Casa Rio Digital, mantido pela Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia da Prefeitura do Rio. Nas visita a alguns desses espaços — sempre durante dias úteis, dentro dos horários de funcionamento e por meia hora a uma hora —, o “Globo a Mais” comprovou na prática alguns de seus problemas.

Nos telecentros mantidos pelo Proderj na Associação de Moradores do Santa Marta, em Botafogo; na Central de Abastecimento do Estado (Ceasa), em Irajá; e na Penha, nenhum usuário foi encontrado utilizando os espaços. Segundo monitores responsáveis pelos locais, a média de uso diário nessas salas não chega a dez pessoas. Nenhum dos três telecentros contava com cronogramas regulares de atividades, ou mesmo uma sinalização que facilitasse o acesso do público. Em pelo menos dois deles havia máquinas com defeito — na Penha, uma pessoa até tentou imprimir um documento, mas, devido a um problema na impressora, teve que procurar atendimento em outro lugar.

Apesar de movimentado, com cerca de cem usuários por dia, o telecentro do Proderj na Central do Brasil estava com o ar-condicionado quebrado, em um dia de forte calor. Como consequência, os computadores frequentemente travavam por causa do calor, e os usuários precisavam esperar até que as máquinas esfriassem para utilizá-las — o local também não contava com aulas regulares, sendo usado apenas para acesso livre à internet. No mesmo dia, problemas com ar-condicionado também foram encontrados nos telecentros de Copacabana e no prédio do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), no Centro.

Na Penha Circular, Zona Norte do Rio, um caso ainda mais grave: um telecentro informado pelo Ministério das Comunicações como operacional e que faz parte do programa Telecentros.BR tinha seus computadores guardados em caixas. De acordo com Julia Costa, responsável pela ONG Espaço Cultural Brincadeira é Coisa Séria, que deveria sediar o telecentro, o espaço nunca chegou a funcionar como tal porque aguardava adequação física de uma de suas salas. Atualmente, a ONG está desativada, e os computadores e mobiliário, que custaram R$ 19 mil, estão sem uso.

Paulo Coelho, presidente do Proderj, disse que o programa está reavaliando a localização e a infraestrutura de alguns dos espaços e reconheceu a necessidade de repensar o funcionamento dos telecentros:

— Estamos começando a procurar entidades parceiras para cursos à distância em nossos telecentros. Acredito que os nossos espaços são bastante úteis a determinados nichos da população, mas, de fato, é preciso reavaliar o uso que é feito deles, e estamos procurando fazer isso.

Já o Diretor do Departamento de Articulação e Formação da Secretaria de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações, Rogério Macedo, explicou que o Telecentros.BR funciona em associação com dois tipos de entidades: as beneficiárias, que recebem os kits com computadores e mobiliário; e as proponentes, que indicam as primeiras ao governo federal e têm a responsabilidade de adequar os espaços e zelar pelo funcionamento dos telecentros. No caso da Espaço Cultural Brincadeira é Coisa Séria, Macedo afirma que a entidade proponente responsável seria a Fundação Banco do Brasil, que se desligou recentemente do projeto sem atualizar o ministério sobre a situação do telecentro. A Fundação pediu que as perguntas do repórter fossem dirigidas ao ministério.

— Casos como esse infelizmente acontecem. Estamos procurando estabelecer uma política interna para lidar com isso. É algo que precisa ser resolvido, e vamos fazer um mutirão para ver quais telecentros estão nessa situação, tentar dar uma continuidade para esses espaços e, quando não for possível, realocar os computadores e o mobiliário para novos telecentros — explica Macedo, que também admite a perda de protagonismo dos telecentros para a inclusão digital. — Não adianta florear a realidade. O computador está mais barato e as pessoas tiveram um aumento em sua renda. Assim, elas tendem a resolver seu problema de falta de acesso a máquinas por conta própria, e o telecentro vem perdendo sua função estratégica, ainda que seja importante em alguns casos. Estamos cientes disso e temos buscado iniciativas que preencham esse espaço.

Unesco: inclusão digital é mais que oferecer acesso

Coordenador de Comunicação e Informação da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no Brasil, Adauto Soares afirma que o próprio conceito de “inclusão digital” é algo mais complexo do que apenas oferecer o acesso a computadores e critica a visão simplificada que muitas iniciativas do poder público têm sobre o assunto.

— Em geral, esses programas são feitos com a premissa de que basta proporcionar o acesso a computadores e à internet para resolver o hiato digital da população. Só que essa ideia é equivocada, pois também é preciso a formação das pessoas para além do uso básico. Enquanto isso não for entendido, teremos um problema. Não é porque alguém está usando um computador que ele realmente domina o uso produtivo da máquina — afirma Soares, que também critica a fragmentação das políticas públicas de inclusão digital:

— A consequência é que não há coesão nem uma economia de recursos, que, de outra forma, poderiam ser utilizados mais eficientemente.

E os custos não são pequenos. No programa do Proderj, o investimento é de R$ 3.200 mensais por telecentro. Como são 17 no município do Rio, o total são R$ 652.800 por ano. O Casa Rio Digital, da Prefeitura do Rio, gasta R$ 15 mil por mês em cada um dos 25 telecentros, somando R$ 4,5 milhões por ano. Outro programa da Prefeitura carioca, o Naves do Conhecimento, prevê R$ 90 mil em cada uma das cinco unidades, ou R$ 5,4 milhões por ano. O programa do governo federal Telecentros.BR entrega um kit de R$ 19 mil a cada telecentro. Como foram 12 kits no município do Rio, o custo chegou a R$ 228.000.

Como, então, adequar esses telecentros a uma realidade que hoje é bastante diferente daquela para a qual eles foram criados? Uma das possibilidades, acredita Juciano Lacerda, professor do curso de mestrado de Estudos de Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), seria estabelecer esses espaços e suas atividades a partir do diálogo com as comunidades locais.

— Se os telecentros se integrassem melhor a experiências locais e procurassem agir conjuntamente com fomentadores de atividades nas comunidades, eles poderiam ter uma importância maior. Falta articulação local com outras ações e, com isso, sustentabilidade. Nos locais onde esses espaços foram pleiteados pela própria comunidade, o uso deles costuma ser mais ativo — afirma Lacerda, que é pesquisador do tema.

A tese do professor da UFRN parece encontrar respaldo em dois telecentros visitados pelo “Globo a Mais”. O primeiro, implementado no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência (Ciad) Mestre Candeia, no Centro do Rio, sob administração do programa Casa Rio Digital, beneficia-se de sua localização para oferecer gratuitamente, em parceria com empresas como Intel e Cisco, cursos regulares de níveis variados para as pessoas que já frequentam o local.

Já o segundo, um espaço instalado pelo governo federal no Complexo da Maré como parte do programa Telecentros.BR, foi implementado em associação com a ONG local Redes de Desenvolvimento da Maré, que ministra cursos básicos de informática aos moradores da comunidade. Em ambos os locais pôde-se observar o uso dos computadores pela população.

— Acredito que a importância de um espaço como esse é grande, principalmente para aqueles que têm dificuldade de mexer com computadores ou mesmo não têm dinheiro para comprar uma máquina — afirma Nelson Malaquias, de 48 anos, e que descobriu o telecentro do Ciad Mestre Candeia quando fazia outra atividade no prédio. — Já frequento esse espaço há cerca de um ano. Tenho computador em casa, mas aprendi a mexer mesmo foi aqui.

Uma das diretoras da Redes de Desenvolvimento da Maré, Patrícia Viana também defende a presença do telecentro, ao menos nessa comunidade:

— Temos uma demanda enorme por um espaço como esse na comunidade. O governo federal cedeu os equipamentos e nós da Redes cuidamos da administração, da organização e do planejamento das aulas. Isso faz toda a diferença para a comunidade. Atendemos pessoas de todas as idades.

Responsável pelo projeto Casa Rio Digital, o secretário municipal de Ciência e Tecnologia do Rio, Franklin Coelho, acredita que para se manterem relevantes, os telecentros devem ser trabalhados para além da universalização do acesso digital, dentro de uma proposta maior de Cidade Digital e de um processo de modificação da infraestrutura e da cultura da cidade:

— Não basta mais colocar um computador em sala com algumas aulas se você não trabalha com uma visão pedagógica mais ampla e uma estrutura de gestão que vise à sustentabilidade do local a longo prazo. Isso exige um desenho que integra a comunidade e pensa no território.

Nesse sentido, acredita ele, as chamadas Naves do Conhecimento estariam um passo além dos telecentros. Implementados pela Prefeitura do Rio, esses espaços têm como proposta reunir tecnologia de ponta em prédios interconectados por rede e integrados a ações de educação, entretenimento, serviços e formação profissional em praças centrais de diversos bairros. Cinco Naves já foram inauguradas em bairros das zonas Norte e Oeste do Rio, e o objetivo da Prefeitura é chegar a 40 em todo município até 2016.

Durante a visita do “Globo a Mais” a um desses espaços, no bairro de Irajá, todos os 18 computadores do local estavam sendo utilizados por jovens para pesquisas, acesso a redes sociais e jogos educativos, enquanto outras pessoas aguardavam a vez. A Nave também conta com painéis touchscreen, com aplicativos educacionais e de prestação de serviços ao cidadão, e espaços específicos para o uso de tablets. No segundo andar, uma turma de ao menos 20 pessoas assistia a uma aula de capacitação.

— Não acredito que as Naves sejam uma evolução do telecentro, porque integram funções que não estavam previstas na concepção deles. É uma proposta diferente, pensada para levar em consideração um modelo de Cidade Digital e que se adequa à realidade atual — afirma o secretário.

Resta saber se, a longo prazo, esses espaços se mostrarão sustentáveis e não repetirão os erros dos telecentros — tida como a primeira do projeto, a Nave do Conhecimento de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio, foi inaugurada muito recentemente, há menos de um ano, em julho de 2012.

Fonte: O Globo

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Sobre André Araújo

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