Do rádio à internet: a legalidade e a mobilização popular

Texto: Instituto Humanitas Unisinos no site FNDC

Nas últimas semanas, diversos veículos de comunicação recordaram a Campanha da Legalidade, que há 50 anos garantiu a posse de João Goulart na presidência da República em 1961, após a renúncia do então presidente Jânio Quadros. Apesar da memória, “não sabemos se o retorno midiático da Legalidade chega a cumprir a função de esclarecimento reivindicada pelos que acreditam que a memória possa contribuir para a existência de sociedades melhores”, polemiza a jornalista.

Nesta entrevista, concedida à IHU On-Line por e-mail, Christa Berger* comenta o papel da imprensa radiofônica naquele momento histórico e menciona que, 50 anos após a Legalidade, a imprensa brasileira “segue conservadora e ocupa um lugar importante na defesa dos interesses privados dos grandes proprietários da nação”.

Nesta segunda-feira, 29-08-2011, Christa participa do Seminário 50 anos da Campanha da Legalidade: memória da democracia brasileira, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A conferência Do rádio à internet: a legalidade e a mobilização popular hoje acontece às 20h, no Auditório Central.

Confira a entrevista.

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IHU On-Line – O que era e como funcionava a cadeia radiofônica da Legalidade?
Christa Berger – Quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961 e a tentativa de os ministros militares vetarem a posse do vice-presidente João Goulart, instala-se um movimento de resistência comandado pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.

O governador requisita a rádio Guaíba e, do porão do Palácio Piratini, passa a se comunicar com os gaúchos criando a rádio da Legalidade. Outras emissoras aderem-se à iniciativa. Afirma-se que são mais de cem (no Brasil e algumas no Uruguai e Argentina) que retransmitem os discursos de Brizola, entrando em cadeia radiofônica. Nos dias seguintes, a programação vai se assemelhando à programação de outras rádios, intercalando informação e música, só que com mensagens insurgentes, e de informações políticas atualizadas com o objetivo de fortalecer o sentimento de resistência.

Esta experiência de apenas 10 dias é suficientemente forte para merecer registro nos estudos de política e de comunicação como mais um exemplo do potencial deste meio de comunicação. A Rede da Legalidade exemplifica 1) o poder de mobilização do rádio já descrito por Bertold Brecht na década de 1920 através das rádios operárias, na Alemanha, e com tantas contribuições nos processos revolucionários na América Latina e na África; e 2) um meio apropriado para emitir discursos. Basta lembrar do recente filme O Discurso do Rei, em que o rei George VI usa o rádio para se comunicar com seus súditos. Ele diz: “Nunca antes um rei recém-coroado pôde falar com todos os seus povos, em suas próprias casas, no dia de sua coroação”.

Qual era o papel do rádio na construção social e política da sociedade 50 anos atrás?
Há uma sintonia entre contextos históricos, meios de comunicação e acontecimentos. A imprensa propicia disputas políticas argumentativas e a cobertura de acontecimentos estendidos no tempo – o caso Watergate é um bom exemplo desta afinidade. Já o rádio, pela característica de palavra falada, é uma voz que informa, explica, comenta, critica, faz eco das conversações privadas e todos os exemplos que o engrandecem; falam de discursos (Allende se despediu do poder no ar) e de mobilizações (a rádio Voz dos Árabes teve papel decisivo na guerra de libertação da Argélia) e a tevê, ao se consagrar pela imagem, uniu o mundo para celebrar a chegada do homem à lua, os casamentos reais, mas também a destruição das torres do World Trade Center.

Hoje, a internet responde a características próprias do nosso tempo. A circulação é instantânea, não há um lugar fixo de emissão. Muitas vozes se mesclam, e tanto exemplifica a existência solitária em frente ao computador como as cenas de mobilização propiciadas pela organização em rede.

No Brasil dos anos 1950, o rádio é hegemônico; é por onde se dá a conhecer o gosto musical, os novos produtos disponíveis no mercado bem como as pendengas políticas. Somente nos anos 1960 este poder começara a ser dividido com a televisão.

Como a Legalidade é compreendida e interpretada hoje?
A memória é supervalorizada na sociedade contemporânea porque as comemorações de datas propiciam grandes negócios – lançamentos de livros, audiências de tevê, estreias de filmes e documentários. Talvez por isso a Legalidade esteja circulando tão intensamente nestes seus 50 anos. Como outros fenômenos da sociedade contemporânea, não sabemos se o retorno midiático da Legalidade chega a cumprir a função de esclarecimento reivindicada pelos que acreditam que a memória possa contribuir para a existência de sociedades melhores. No entanto, não há dúvida, de que as narrativas sobre a Legalidade trazem para a atualidade aquele rico momento histórico de luta pela democracia e que, em sua maioria, fazem a crítica aos que já ensaiavam então o golpe militar que se concretizaria em 1964. Do que tenho lido e visto, a ênfase recai nos aspectos da resistência, da luta pela legalidade e das biografias dos homens exemplares.

A imprensa deve tomar posição política, como fez à época da Legalidade?
A imprensa sempre tem posição política. Em momentos de crise, em situações revolucionárias, os jornais assumem abertamente suas posições. Armand Mattelart conta que no Chile governado pelo socialista Salvador Allende, o conservador jornal El Mercurio deslocou sua posição de meio de comunicação de massa para meio de comunicação de classe, pois fez política para derrubar o presidente, mesmo diminuindo seus lucros econômicos. Alcançado seu objetivo, voltou a ser o jornal que afirma “informar com neutralidade e imparcialidade”. O que aconteceu aqui também foi a explicitação da posição política já existente. Os grandes jornais acompanharam o movimento pelo parlamentarismo, temerosos como, todos os conservadores, sobre um possível governo de João Goulart. A Última Hora foi o único jornal que aderiu à Campanha da Legalidade sendo impresso, inclusive, no porão do Palácio, como conta Flávio Tavares, seu editor.

Penso que os donos dos jornais devem anunciar sua posição política e apresentá-la em seus espaços de opinião e deixar para os jornalistas a função de cobrir os acontecimentos do dia a dia com os critérios originados na prática e na consciência dos profissionais.

Como vê a atuação da imprensa hoje na cobertura de temas políticos?
A imprensa brasileira segue conservadora e ocupa um lugar importante na defesa dos interesses privados dos grandes proprietários da nação. Por outro lado, o discurso jornalístico, ainda que marcado pela visão de seus proprietários, expressa contradições e tem pontos de fuga que se deve à própria natureza da linguagem e à postura de alguns profissionais. Um elemento novo neste cenário é a circulação de contrainformação ou de crítica à informação dos veículos da grande imprensa através da internet. Os exemplos se multiplicam nesta direção. As manifestações dos jovens de Londres recebem uma cobertura, nos meios hegemônicos, desqualificadora em que são denominados como marginais e bandidos merecedores da ação violenta da polícia, enquanto imagens, depoimentos e análises de intelectuais situam as ações e os atores em outro patamar nas informações que circulam nas redes.

*é professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e professora do PPGCOM da Unisinos. Christa Berger é autora de Campos em confronto: a terra e o texto (Porto Alegre: Editora da Universidade, 1998), e uma das organizadoras do livro O Jornalismo no Cinema (Porto Alegre Editora da Universidade – UFRGS, 2001).

Fonte: FNDC

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Sobre Juliana Bulhões

Mestranda em Estudos da Mídia pela UFRN. @juliana_bulhoes
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