Tecnologia e conhecimento: a migração dos acervos para a web

Por Carolina Octaviano

O surgimento da Rede Mundial de computadores e o desenvolvimento tecnológico que se deu, principalmente, a partir da década de 90, proporcionaram uma maior agilidade e facilidade de comunicação e de se obter informações, revolucionando não somente o modo de se comunicar, mas também de buscar o conhecimento. E foi neste cenário que as bibliotecas e as obras raras migraram para o formato digital. Se, num passado distante, o conhecimento era restrito, centralizado e focalizado em determinados grupos sociais, hoje, o que ocorre é justamente o acesso ampliado para um público cada vez maior.

“Com a intensificação do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na área de ciência da informação, a partir dos anos 80, e com a abertura da rede internet na década de 90, as bibliotecas passaram a considerar, sob uma nova ótica, a questão da manutenção dos seus acervos e do acesso à informação, agora via web”, explica Rosaly Fávero Krzyzanowski, bibliotecária, especialista em Ciência da Informação na área de saúde e coordenadora da Biblioteca Virtual do Centro de Documentação e Informação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no artigo “Bibliotecas e Portais de Conteúdos Científicos, Tecnológicos e Culturais – recursos para ampliar a visibilidade da informação na web”, publicado na revista Ciência & Ambiente (nº 40, 2010).

Ainda segundo Krzyzanowski, “A passagem dos textos dos livros, periódicos, jornais – entre outros documentos – para a tela do computador rompe as estruturas do texto escrito e gera profunda transformação na materialidade desses. É a passagem do texto em suporte papel para o suporte eletrônico, que oferece novas possibilidades para o registro e uso da informação”.

Luiz Atílio Vicentini, coordenador do Sistema de Bibliotecas e da Biblioteca Central (César Lattes) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera importante o processo de digitalização de obras de difícil acesso como forma de conservação essas obras e de democratizar o conhecimento: “essas iniciativas vêm de encontro à democratização do acesso ao conhecimento, pois estamos diante de uma sociedade que ‘consome’ constantemente mais e mais informações”, afirma. Ângela Monteiro, coordenadora da Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional (FBN), confirma essa preocupação em democratizar o conhecimento e também em preservar essas obras que antes eram restritas. “Além de facilitar e democratizar o acesso a digitalização também contribui para a preservação física da obra na medida em que evita o manuseio, e pela preservação do conteúdo informacional na medida em que o difunde e o dissemina”.

De acordo com Vicentini, o que dificulta o processo de transformação para o digital das obras raras é justamente a complexidade da conversão, se comparada a uma obra impressa atual, pelas características de formato e impressão que elas apresentam, que demandam um trabalho específico e mais demorado. Ele lembra os altos custos da criação de uma infraestrutura que permita o trabalho de digitalização de obras raras. Além disso, até pouco tempo não havia empresas privadas, órgãos de fomento e bancos que financiassem a instalação de laboratórios de digitalização nas instituições. Apesar desses percalços, ele acredita que o Brasil não esteja atrasado nesse processo, que tem como pioneiros a França e os Estados Unidos. Marta Valentim, doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), não concorda com Vicentini, para ela o Brasil está sim atrasado em relação aocenário internacional, e bastante, e diz que países como Alemanha, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra estão à frente. Na opinião de Valentim isto se deve ao alto custo que a digitalização deste tipo de obra envolve. “Essa situação está diretamente relacionada a recursos financeiros, é caro digitalizar e preservar obras raras, exige a aplicação de tecnologias de informação e comunicação próprias para isso, bem como pessoal especializado para trabalhar com esse material”.

Valentim explica a complexidade e os processos aos quais as obras exclusivas e raras – que requerem inúmeros cuidados – devem ser submetidas, no processo de digitalização e preservação, em cada uma das etapas: “é necessário pensar na matriz, na sua preservação e armazenamento, o que requer equipamento e estrutura tecnológica específicas para esse fim. É importante também definir o formato em que a obra será armazenada e acessada. Outro fator a ser pensado é relativo à resolução da obra digitalizada (o máximo de qualidade possível), e na resolução para acesso, que deve ser compatível com a capacidade de o usuário final ter uma imagem de qualidade quando capturar o elemento da internet. Porém, esse download tem que ser, ao mesmo tempo, rápido. É também necessária, mas aí, por parte dos usuários, a utilização de softwares para a captura, vizualização, navegação, impressão, etc”.

Para Vicentini, nem mesmo os desafios enfrentados pela tecnologia da digitalização diante da fragilidade e antiguidade de algumas obras raras, cuja manutenção física é cercada de cuidados, devem ser vistos como um empecilho para a mudança do impresso para o digital. “Eu diria que a digitalização está a favor da preservação dessas obras, pois existem equipamentos apropriados para a digitalização desse tipo de documento”, mas o coordenador das bibliotecas da Unicamp ressalta que o que precisa ser feito com certa antecedência é a restauração de obras raras, antes de entrar no processo de digitalização. Esse trabalho de restauração tem crescido nacionalmente, pois já existe apoio financeiro para esse tipo de trabalho”, confirma o pesquisador.

Embora o processo de digitalização pareça consolidado como saída para conservação do acervo das bibliotecas, e principalmente das obras que tenham valor especial, pela especificidade de sua concepção, ou por sua antiguidade, além de ser o melhor meio de garantir o acesso do público geral a esses acervos, ainda há poucos projetos de digitalização no Brasil. Entre eles, Vicentini cita o projeto da Biblioteca Nacional, que participa do projeto de construção da Biblioteca Digital Mundial (World Digital Library), coordenado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e disponibiliza raridades como a Bíblia Mogúncia (uma das obras impressas mais antigas do mundo), gravuras de Debret, a Carta de Abertura dos Portos, mapas antigos, as ilustrações do Livro de horas, entre outras, que podem ser acessadas neste link. Há oito anos, a Biblioteca Nacional iniciou o processo de digitalização dessas obras raras, exclusivas de acesso difícil ou restrito e já conta com um número bastante expressivo de títulos digitalizados, conforme comenta Monteiro. “A BN vem digitalizando seu acervo através de projetos temáticos desde 2003. A partir de 2006 foi criada a BNDigital e esta digitalização passou a ser feita de forma sistemática. Já foram digitalizados 23.000 itens (ou títulos)”.

Vicentini lembra ainda da importância da Brasiliana Guita e José Mindlin instalada em um novo prédio dentro da Universidade de São Paulo (USP). A biblioteca está digitalizando a coleção de obras raras doada pelo bibliófilo José Mindlin e se estruturando para digitalizar outros acervos raros e de domínio público. “A quantidade de obras raras já digitalizadas até o momento não é o mais importante. O que deve ser levado em consideração é que os projetos citados, anteriormente, são projetos de digitalização de obras raras consistentes, bem estruturados e ao longo dos próximos anos teremos acervos digitalizados no Brasil de grande relevância em âmbito mundial”, diz Vicentini.

A relevância das bibliotecas digitais de teses e dissertações

Assim como os acervos de obras de difícil acesso são importantes para difundir o conhecimento, as bibliotecas digitais que disponibilizam teses e dissertações também têm um papel primordial na difusão da informação, tanto para a comunidade científica e acadêmica, quanto para a sociedade em geral. Entre os principais exemplos, pode-se citar: a Biblioteca Digital da Unicamp, devendo ressaltar ainda o projeto Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que possibilita a integração dos dados de todas as teses digitalizadas nas instituições participantes do mesmo e que conta atualmente com 97 instituições participantes e mais de 157 mil teses indexadas.

Sobre a Biblioteca da Unicamp, criada em 2011, Vicentini afirma: “uma universidade como a Unicamp tem um perfil de desenvolvimento de novos conhecimentos e de inovação, muito desse conhecimento vem sendo registrado nas dissertações de mestrado e teses de doutorado ao longo dos mais de 40 anos de vida da Universidade. O acesso às dissertações e teses, mesmo tendo essas obras armazenadas nas 27 bibliotecas da universidade, tinham acesso restrito, ou seja, a consulta só poderia ser feita localmente nas bibliotecas”.

Em contrapartida, nos últimos anos, tem crescido mundialmente o movimento em prol doOpen Access (ou Acesso Aberto), fazendo com que universidades de todo o mundo começassem a disponibilizar suas teses e dissertações defendidas por pesquisadores dessas instituições. “Diante desse movimento mundial, a maioria das universidades brasileiras também começaram a digitalizar as suas teses. Todo esse trabalho possibilita que o acesso ao conhecimento registrado nas dissertações e teses antes com acesso ‘restrito’ passasse a ter uma maior difusão. O número de downloads nas teses da Unicamp demonstra isso, estamos próximos dos 7 milhões de downloads realizados”, diz o coordenador da Biblioteca da Unicamp.

Para acessar as teses e dissertações presentes na Biblioteca Digital da Unicamp e fazer download das mesmas é preciso ter um cadastro como usuário. Há um banco de dados da Biblioteca digital dessa universidade que registra todos os downloads de teses e dissertações. Esses dados revelam que pessoas de mais de 70 países procuram por elas. “Atualmente temos mais de 785 mil usuários cadastrados do mundo todo. O perfil desses usuários é o mais variado possível, temos desde particulares a pessoas de instituições de renome. Do total de usuários cadastrados até a presente data temos: 751 mil do Brasil, 15 mil de Portugal, 3 mil dos Estados Unidos, mil da Argentina e mil do México. Se olharmos o número de downloads realizados, temos: 5 milhões do Brasil, 59 mil de Portugal, 20 mil dos Estados Unidos, 8 mil do México e 7 mil da Argentina”, revela Vicentini.

Scientific Electronic Library Online (SciELO), um modelo

Esta Biblioteca Científica Eletrônica foi criada, em 1997, pela Bireme, Organização Panamericana de Saúde (Opas) e Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria e com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), buscando a renovação do processo de comunicação científica tradicional, pois integra a função de publicação com a manutenção e a preservação de coletâneas de periódicos e o controle bibliográfico. O modelo apresentado pelo SciELO foi desenvolvido para contemplar as necessidades da comunicação científica, tendo início no Brasil e, atualmente, presente em países em desenvolvimento (América Latina e Caribe), tornando-se uma solução para garantir o acesso gratuito e universal à literatura científica dos países que fazem parte do projeto. Nela, estão disponíveis também procedimentos integrados que possibilitam medir o uso e o impacto dos periódicos indexados. Desde 2002, este modelo tem o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e integrou-se às bases de dados bibliográficas Medline e Lilacs, ao serviço de busca do PubMed – da National Library of Medicine -, e à base de currículos da Plataforma Lattes, gerenciados por este conselho.

Fonte: Com Ciência

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Sobre André Araújo

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