A contradição da contribuição da mídia para as revoltas árabes, por Peter Beaumont

Por Peter Beaumont (do The Guardian) para Folha de S. Paulo

Pense na imagem que define os levantes no Oriente Médio e na África do Norte. Não foram as celebrações pela queda de Hosni Mubarak, ou as batalhas na praça Tahrir, no Cairo. A imagem que define os acontecimentos é a de um jovem com o celular.

As barricadas de hoje não são encimadas por fuzis e baionetas, mas por celulares.

Enquanto os comentaristas tentam capturar a natureza dos levantes, os retratam como uma versão árabe das revoluções de 1989 na Europa Oriental, ou como algo parecido com a revolução que derrubou o xá do Irã em 1979. Mais comum, porém, é que tentem retratá-los com base na mídia que lhes deu forma.

Isso resultou em uma categoria igualmente controversa de artigos em resposta.

Os comentários desse tipo argumentam que, por revoluções terem existido antes para das mídias sociais, e por pessoas serem responsáveis pelas revoluções, que importância a nova mídia poderia ter de fato?

Mas a realidade é que a mídia social desempenhou um papel. A contribuição foi importante, mas também foi complexa, contraditória e difícil de compreender.

A despeito das alegações de que a revolução na Tunísia aconteceu via Twitter ou foi inspirada pelo WikiLeaks, nenhum dos dois sites desempenhou papel importante. Mas, “o papel do Facebook foi imenso”, diz Khaled Koubaa, presidente da Sociedade de Internet da Tunísia. Ele argumenta que a mídia social funcionava em dois níveis, durante a ditadura de Ben Ali. Alguns milhares de “nerds” usavam o Twitter, mas 2 milhões de pessoas conversavam no Facebook.

“Três meses antes que Mohammed Bouazizi ateasse fogo a si mesmo em Sidi Bouzid, tivemos caso parecido em Monastir. Mas ninguém ficou sabendo porque não foi filmado. O que fez a diferença da segunda vez é que as imagens de Bouazizi foram colocadas no Facebook.”

Com a censura estatal agindo vigorosamente em muitos desses países, o Facebook funcionou exatamente como a mídia deveria: como fonte de informação.

Mas, se o Twitter teve influência mínima nos acontecimentos da Tunísia, o mesmo não se aplica ao Egito.

Lá, os detalhes sobre as manifestações eram transmitidos via Facebook e Twitter, e o guia de 12 páginas dos ativistas sobre como enfrentar o governo era distribuído por e-mail. Foi então que o regime de Mubarak desligou os serviços de internet.

O substituto das redes sociais passou a ser uma variedade analógica do Twitter: cartazes manuscritos, erguidos nas manifestações, que informavam onde e em que horário as pessoas deveriam se reunir no dia seguinte. Para mim, o melhor resumo do fenômeno é um encontro que tive com um grupo de jovens tunisianos em uma manifestação. Perguntei o que estavam fotografando com seus celulares.

“A nós mesmos. Nossa revolução. Nós postamos as fotos no Facebook”, respondeu um deles, rindo. “É assim que contamos ao mundo o que está acontecendo.”

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Sobre Juliana Bulhões

Mestranda em Estudos da Mídia pela UFRN. @juliana_bulhoes
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