Os trinta anos do celular, por Ethevaldo Siqueira (O Estado de S. Paulo)

Por Ethevaldo Siqueira, O Estado de S. Paulo

Os primeiros serviços de telefonia móvel celular foram inaugurados em 1981, no Japão e na Escandinávia. Eis aí um bom momento para relembrarmos os primórdios desse serviço que está completando três décadas. Ouso fazer essa análise com a perspectiva da história, por estar acompanhando o dia a dia do celular, desde seu nascimento.

O que mais me impressiona no celular são suas transformações e novas utilidades. Um avanço que nasceu exclusivamente para a comunicação telefônica, apenas para nos permitir falar, tem hoje mil aplicações: possibilita ao usuário fazer fotos e filmes digitais, acessar a internet, passar e receber e-mails, baixar músicas e jogos, ouvir rádio, ver TV, orientar-se pelo GPS (Global Positioning System), usá-lo como cartão de crédito e muito mais.

O pioneirismo nessa área foi, sem dúvida, do Japão, ao fazer em 1979 as primeiras demonstrações experimentais desse tipo de telefonia no mundo. Mas a inauguração do primeiro serviço comercial celular japonês só ocorreu em 1981, no mesmo momento em que o celular nascia na Escandinávia.

Lembro-me que, quando a Suécia inaugurou seu primeiro sistema comercial de telefonia celular, em junho de 1981, um dos convidados para conhecer de perto a nova tecnologia foi o então ministro das Comunicações do Brasil, Euclides Quandt de Oliveira. Encarregado da cobertura jornalística dessa área pelo Estadão, pude acompanhar de perto aquelas primeiras demonstrações da telefonia móvel celular.

Que diferença entre um telefone celular de 1981 e os atuais. O aparelho era parecido com uma maleta, pesava entre 8 e 10 quilos, seu funcionamento era totalmente analógico e consumia uma montanha de energia. Por isso, suas baterias não permitiam mais do que 30 minutos de conversação sem ter que recarregar. Mesmo assim, achávamos aquela tecnologia admirável.

Comunicação veicular. Os celulares de 1981 não eram portáteis, mas, a rigor, telefones veiculares, pois eram usados e instalados predominantemente nos automóveis ao lado do motorista. Foi assim que tive contato com o telefone celular, há exatos 30 anos, em companhia de outros jornalistas, em Estocolmo.

Numa Kombi, rodamos a capital sueca com um daqueles imensos telefones pioneiros. Num domingo magnífico, fomos passear de barco entre as ilhas do arquipélago de Estocolmo. E lá foi conosco o telefone brucutu, para provar que ele falava até no mar.

Dois meses depois, a serviço da Revista Nacional de Telecomunicações (RNT) e deste jornal, viajei para a Arábia Saudita, para ver seus novos sistemas de telecomunicações.

Inundado de petrodólares, o governo daquele país acabava de comprar o mais moderno sistema telefônico digital de telefonia fixa da época, com 2,5 milhões de linhas, numa concorrência vencida pelo consórcio Ericsson-Philips-Bell Canada. E, complementando tudo, adquiria também um pequeno sistema de telefonia celular, cuja cobertura ia pouco além de Ryad, a capital, para uso exclusivo da família real.

Tive, então, outra experiência inesquecível: fazer uma ligação internacional em pleno deserto. A cerca de 30 quilômetros da capital saudita, em companhia de um engenheiro, resolvi experimentar um daqueles telefones de 8 quilos, numa ligação direta para minha secretária, na revista RNT, em São Paulo, discando normalmente o número: +55 11 284-1599. “Alô, Maria José, estou falando no meio do deserto, de um telefone móvel celular”, comemorei. A secretária quase não acreditava. “Não é possível, você parece que está aqui em São Paulo.”

Primeira geração. Dois anos depois, no dia 13 de outubro de 1983, em Chicago, num dia cinzento, de ventos cortantes, com a temperatura por volta de 10 graus Celsius negativos, assisti à inauguração do primeiro serviço celular comercial das Américas.

Desenvolvido pela antiga AT&T, tinha o pomposo nome de “Serviço Avançado de Telefonia Móvel” (Advanced Mobile Phone System, conhecido depois apenas pela sigla AMPS). Era o mesmo celular de primeira geração (1G) que chegou ao Brasil em 1990.

Consultores e analistas faziam projeções pessimistas sobre o futuro do celular como negócio e como telefone pessoal. A pergunta básica dirigida a todos pelos pesquisadores era sempre esta: “Quem vai querer carregar um telefone de 8 quilos?”

Duas consultorias famosas, contratadas pela AT&T, concluíram que o futuro do negócio era medíocre e que sua penetração no mercado nos Estados Unidos, ao longo de 20 anos, não passaria de 20% da população.

Imagine, leitor, se, em 1983, alguém pudesse antecipar àquelas consultorias famosas que, 30 anos depois, o mundo teria, como efetivamente tem hoje, mais de 5,3 bilhões de celulares em serviço. E mais: que sua disponibilidade no Brasil (108 celulares por 100 habitantes), mesmo com todas as limitações que conhecemos, seria maior do que a dos Estados Unidos (102%).

O primeiro grande equívoco daqueles consultores foi considerar o celular como algo estático e não projetar sua evolução futura, e todas as transformações revolucionárias decorrentes da miniaturização, da digitalização e da explosão de softwares e aplicativos.

O segundo equívoco foi não perceber que a maior aplicação do celular – sua killer application – seria a comunicação pessoal, a qualquer hora e em qualquer lugar. Ou, numa palavra, a mobilidade.

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Sobre Juliana Bulhões

Mestranda em Estudos da Mídia pela UFRN. @juliana_bulhoes
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